três minutos de sonho
O despertador tocou às 8.02, como sempre. Ela gostava de ter a ilusão de poder esticar os três minutos até as 8.05 até ao infinito, perder-se na imensidão da almofada, dar asas ao espaço do colchão e espreguiçar-se na leveza dos sonhos da noite anterior, como se fosse possível trazê-los para a realidade do dia.
A ilha era pequena e bonita, com casas avermelhadas, de tijolos, cada uma com flores de várias cores a cair em cascata pelas varandas de grades pretas. O tempo estava esquisito. O ar parado, adormecido, como se todas as partículas pairassem no invisível, sem se mexer nem um milésimo de milímetro. Não havia sons, nem o mar ao fundo a bater nas rochas (enormes, gigantes de pedra que sonham um dia tornar-se nuvens leves) fazia qualquer barulho. Não havia pessoas na rua, as luzes das casas estavam desligadas apesar da escuridão lá fora. Era um cenário estranhamente aconchegante, quente, convidativo, misteriosamente doce.
Ele chegou de imprevisto, as roupas molhadas coladas ao corpo, como se tivesse acabado de emergir daquele oceano escuro.
-Estás aqui?
Pegou-lhe na mão.
-Vem comigo, tenho que te mostrar uma coisa.
O som dos passos dos dois, os dele seguros e rápidos, os dela a escorregar nos telhados desconhecido e a respiração ofegante ecoavam no silêncio desértico.
-Onde vamos?
A resposta surgiu em olhar. Num olhar. Naquele olhar. Olhos que dizem “vamos procurar a vida, vamos procurar a magia que já não sabemos onde está”
Chegaram os dois a um recanto perto de uma rocha.
Sem aviso, o som voltou, o movimento voltou transformado num vento húmido que rodopiava, abanava com força as roupas, os cabelos, dentro deles.
-Não te conheço. Mas sinto que isto tem que ser assim. Se este é o caminho dos sentidos, eu não quero outro. Mesmo que dure só esta noite parada no tempo.
-E amanhã?
-Qual amanhã?
Os três minutos acabaram. Ainda ensonhada, ela vai em passos lentos até a banheira. Na esperança da água regar os rebentos secos de vida, renascendo todas as vontades.



2 Comments:
At 6:34 PM,
Boon said…
É sempre bom sentir-me como se fosse uma criança a abrir aquela prenda encantada que tanto queremos mas que não sabemos o que é. Tu és isso... todos os dias... todas as horas
At 7:14 PM,
maria said…
...
Se sonhar é assim: também quero!!
:)
Esse desejo de partir... deve ter muito que se lhe diga, não, psi?!
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